Orquestra Jazz de Matosinhos & Perico Sambeat_Casa da Música, 2007

Orquestra Jazz de Matosinhos & Perico Sambeat

A Orquestra Jazz de Matosinhos dedica um programa específico ao jazz espanhol para big band e convida o saxofonista e compositor de grande projeção no contexto do jazz europeu, Perico Sambeat.

O repertório aqui proposto reflete a especificidade do jazz espanhol, com as suas estreitas ligações à música popular, tanto a nacional como a latino-americana. Caso de “El Vito en el Congo”, tema tradicional arranjado por Miguel Ángel Blanco e “Nido del Aire" e “Olhail” peças compostas por Perico Sambeat. O espanholismo de “El Puig d’en Rostroll” composta por Lluis Vidal e na qual os diálogos entre pequenos grupos de instrumentos e a orquestra parecem destinadas a sugerir a transposição para os instrumentos de certas técnicas de vocalização. 

A ideia de «composição extensiva» é uma outra característica deste repertório. Com instrumentação de Miguel Ángel Blanco: “Grana” onde se nota a natural influência dos grandes impressionistas espanhóis, como Isaac Albéniz ou Manuel de Falla, ou “Habanera Excéntrica” uma peça-chave marcada pela curiosa mescla entre a longínqua invocação do mundo sonoro e tímbrico de um Duke Ellington. 

As duas peças de Perico Sambeat “Memoria Sueño" e “Tio Petila”, e a composição original de Vicens Martín “El Pont”, inserem-se claramente no domínio do jazz mais explícito, sem especiais ligações à música popular. 

Perico Sambeat é hoje, sem dúvida, uma das mais talentosas e conhecidas personalidades do jazz espanhol com expressão internacional. Natural de Valência, onde nasceu em 1962, é logo aos seis anos de idade que revela inclinação para a música, estudando de início piano e solfejo e dando mais tarde (1980) os seus primeiros passos na aprendizagem e prática do saxofone, ainda como autodidata. A sua transferência para Barcelona, em 1982, e sobretudo os estudos clássicos de flauta que ali realiza, ao mesmo tempo que frequenta as classes de harmonia e arranjo instrumental no famoso Taller de Musics daquela cidade (à época dirigido pelo contrabaixista português Zé Eduardo), conferem-lhe as bases indispensáveis para abraçar com segurança uma frutuosa carreira profissional. 

Depois de ter tocado em clubes, concertos e festivais um pouco por todo o mundo, Perico Sambeat dá um passo decisivo ao frequentar, em Nova Iorque, a New School, uma das mais competentes instituições de ensino no campo da música em geral e do jazz em particular, tendo na altura tocado ao lado de celebridades como Lee Konitz, Jimmy Cobb ou Joe Chambers, primeiras experiências de contacto com grandes músicos que mais tarde alargaria a colaborações com Tele Montoliú, Steve Lacy, Fred Hersch, Michael Brecker, Bob Mintzer, Daniel Humair, Pat Metheny e Kenny Wheeler ou, mais recentemente, Mark Turner, Kurt Rosenwinkel, Maria Schneider ou Brad Mehldau, tendo com este formado um quarteto notável que ainda incluía os irmãos Mário e Jorge Rossy, no contrabaixo e na bateria. 

Músico galardoado com alguns dos principais prémios do jazz espanhol e europeu, Perico Sambeat distingue-se ainda, em pouco mais de duas décadas de atividade profissional, por uma larga e muito diversificada discografia enquanto líder, co-líder e sideman, rondando os 80 títulos, entre os quais se contam as suas participações em gravações de músicos de jazz portugueses, como Carlos Barretto, Bernardo Sassetti ou Rodrigo Gonçalves, simbólicas dos amplos contactos que regularmente estabelece com a cena do jazz português.